sábado, 10 de julho de 2010

Jogado no ralo

escrevo uns versos que depois rasgo,
despeço-me, despedaço-me
entre mil folhados
sou tudo aquilo que você quiser ouvir
e sentir

o meu paradeiro: entre a tinta e o papel
o meu silêncio: entre o frio e o soluço

e a cada despedida, o asfalto me é tirado
a cada tentativa de itinerário
rabisco o que sou,
o que tenho,
e o que não posso ser.

domingo, 20 de junho de 2010

Sagrada verdade


O que realmente está para ser alcançado é mudar o modo como as pessoas pensam, em outras palavras mais populares: mudar o mundo. Dependendo da época, isso poderia significar uma revolução, falta de conservadorismo, insanidade, uma heresia ou para os que não têm nada a dizer, simplesmente se intrometer no modo como as pessoas seguem sua vida.  Como todos os atos têm suas consequências, esses seriam de acordo com o sistema político e social da ocasião, que teriam como resultados: morrer na guilhotina, ser crucificado, enforcado, apedrejado, torturado, ou que estivesse mais na moda. A conseqüência no final é sempre a mesma: você morre de modo humilhante enquanto todos gritam seu nome dizendo o quanto você é insano, derrotado e contra tudo aquilo que eles chamam de correto.
O que as pessoas não percebem no final das contas é que elas ficaram obedecendo à um sistema corrompido, bancando cortes e planaltos, servindo de fantoches em espetáculos feito de artistas sem arte vulgarmente chamados de cidadãos. Enquanto isso, se apavoram com escândalos de pedofilia na sagrada igreja católica, em como os políticos roubam, da desestruturada educação oferecida à população, aos famintos no meio do mundo. Ainda há aqueles que se escandalizam com a hegemonia americana, com o casamento fracassado, com a puta da esquina, com o lixo que não se recicla, com as mães que abandonam os filhos, roubos, mortes, torturas, apedrejamentos. Nisso,  tudo volta outra vez como um ciclo vicioso. Ninguém resolve, ninguém ajuda a resolver e ninguém quer.  Os que quiseram já foram mortos e sobraram somente pessoas para contarem histórias e não para colocá-las em prática.
Esses que são tão obedientes obcecados pelo conservadorismo do passado, deviam se enojar da História que foi criada. Desde sempre foram desrespeitados por aqueles que souberam somente explorar suas forças de trabalho, seus corpos, aproveitando-se de suas ignorâncias para imporem dogmas conceituados de pura blasfêmia. Desde a antiguidade, livros são queimados, verdades são escondidas, ideias são tituladas como loucura de ébrios em suas tavernas e assim a humanidade vai progredindo com sua filosofia errante. Enquanto alguns tentam mudar o mundo, suas pessoas, seus sistemas e suas verdades incontestáveis julgadas por suas justiças. Sendo assim, o que nos resta é reconstruir o modo como as pessoas pensam para que possamos alcançar algo melhor como futuro, para escrevermos histórias com orgulho de serem lidas. Não de povos heróicos, pátrias ensolaradas por sois fulgidos ou algo mais utópico, mas sim de uma sociedade consciente e crítica o suficiente para defender seu próprio interesse ao invés de observar um horizonte cada vez mais distante ás margens do Ipiranga.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Robotizante

Não me acho o melhor dos vivos,
Dos mortos, devo ser o pior
Entre cada esconderijo obscuro
Quebro meus tetos, rasgo minhas flores,
Prendo-me em sua raiz

A cada cidade, bebo do seu solo,
Engulo o suspiro como num ato de coragem

Em minha vida inexistente
Brando todo o meu sangue
Pálido e incolor

Como se a virtude fosse viver mortamente

terça-feira, 15 de junho de 2010

Voz ativa

"Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu" - Como diz Chico Buarque, há dias que você é simplesmente ausente de todas as suas atividades ou sua opinião é simplesmente indiferente, desconhecida. Suponho que não seja somente isso. Por indiferença as pessoas desconhecem. Talvez seja culpa das grandes atividades realizadas ou elas estão simplesmente ausentes do mundo. O fato é que é muito mais fácil não perceber algo que está bem à sua frente, ignorar um problema que não é tão fácil de ser resolvido. Assim, se fazendo de mortos, cuidam de suas famílias, criam seus filhos, ganham seus salários e até mesmo pagam seus impostos. Cidadãos que efetivamente partiram ou morreram não são ninguém mais que uma fotografia no quarto ou uma carta mofada.
O que seria da sociedade se todos se intressassem por questões sociais? Metade dos problemas estariam resolvidos, obviamente. Mas o ser humano é egoísta por natureza. Individualmente, sempre buscou aquilo que é melhor para si, nem mesmo num país socialista a situação era diferente, até porque tem sempre um querendo passar a sua frente. Desse modo, ficam um do lado do outro sem nenhuma união presente. O que nos falta é muito mais do que solidariedade, precisamos de inteligência. Nada que aprendemos nas escolas, nada que nossos pais possam nos ensinar. É uma questão de reflexão. 
No entanto, a reflexão não seria a mesma por todas as pessoas, já que temos determinadas culturas, religiões, famílias, genes. Poderia até mesmo uma só pessoa ter várias. Mesmo assim, de algum modo, todos chegariam a um mesmo objetivo. Não podemos simplesmente ignorar o problema alheio, a vida da outra família, a dificuldade do outro país. A pobreza, a desigualdade, o racismo, o preconceito, o analfabetismo e todos os males que você puder pensar que existe e juntar com aqueles que desconhece, são problemas de todos. Digo todos pois de uma forma ou de outra isso vai lhe afetar. Seja você pobre ou rico, público ou desconhecido. Não importa onde você esteja nem o quanto você tem, de uma forma ou de outra vão  lhe afetar. É muito mais fácil colocar a culpa no Estado que não usa o dinheiro o público adequadamente, mas quem colocou aqueles homens em seus lugares foi você, como um utúpico cidadão honesto. A nação está nas mãos de cada um, não pense que é uma parcela pequena, já que a consequência é grande e perdidamente eficaz. Sejamos nós existentes. Honremos o ar que respiramos ou viveremos eternamente em constante agonia

domingo, 17 de janeiro de 2010

Escrevo cartas para ninguém
Surtos de um estranho em mim
Num piscar de olhos brinco de ser feliz.

Incrivelmente vivo,
Vivo o impossível
Um paraíso de estrelas
Nuvem de textura doce,
Com aroma cítrico no ar.
Pintado de cores vivas
Pincelado por artistas gregos
Sem mãos, sem corpo
Sem perfeição
Com alma, sem vida.
Fujo do meu abrigo,
Encontro-me no castigo
Amargo e desprotegido
Perverso, despretensioso
Com alma de lobo
Desisto desse constante,
Universo robotizante
Afogo-me no meu mar,
Caio no cosmos particular
No solitário castelo
Que vive sem brilhar,

Um imenso subterrâneo,
num infinito lacrimejar

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Palpite infeliz

Desmaiou. Assim, sem mais nem menos. Caiu na nossa frente. Eu e Luma ficamos sem reação por frações de segundos e logo ajudamos a moça. Ela estava pálida e frágil, mas um pouco conciente. Algumas pessoas pararam para olhar, mas ninguém ajudou. A água que eu trazia na mochila a ajudou a acordar, talvez o Sol tenha contribuído. Perguntamos o seu nome, era Liza. Ela agradeceu a ajuda, pegou suas coisas e foi embora. Não tivemos tempo de nos desperdir e ela estava convincentemente bem. Seguimos nosso fluxo e eu passei o caminho pensando naquela moça bebendo água em meu colo. Para onde será que ela estava indo?
Á noite, Luma e eu combinamos de irmos ao cinema. Namorávamos há 8 meses, mas não me lembro de tê-la pedido em namoro. Tal fato não fazia diferença á mim, creio que á ela também não. Fomos assistir "Lisbela e o Prisioneiro" e eu me imaginei fazendo aquelas loucuras por amor á alguém, algum dia. Mas e Liza? Sinceramente, não me imaginava daqui á um tempo com ela. Talvez por puro pessimismo. Ou por sentir que ela vivesse num mundinho pasárgado. Enquanto eu o buscava. Depois de deixá-la em casa, peguei um ônibus e ao seguir o fluxo pensei que mais cedo poderia tê-lo quebrado. Remar contra a maré não é algo que se planeja, é inesperado. Mas o que será que me segurou? O que me impediu de ir atrás daquela moça e descobrir o que ela escondia? Sim, para mim ela escondia algo. Nunca me vi tão pensativo e desconfiado. Sentia vontade de mudar algo em minha vida. Mudar de pessoa por uns instantes, metamorfosear. Desci do ônibus e ao chegar em casa ouvi repetidas vezes a música Yesterday, dos Beatles, minha preferida. Não precisou de tanto tempo para descobrir que fazia total sentido em minha situação. Até porque já passavam da meia noite. Senti no momento uma leveza na alma, uma refrigeração. Sensações essas que me faziam bem. Diante de toda sensibilidade lembrei de quando tocava piano, senti saudade por um instante. E olhando pela janela pensei: ''A Lua traria ela para mim, só para mim.''
No dia seguinte já estava menos utópico, mas ainda assustado com tantos sentimentos desalinhados. Não sabia mais o que sentia por Liza, mas se antes era distante agora a vontade de ser ainda mais, me estranhava. A menina com rostinho de princesa que passou 5 anos ao meu lado, desda 7 ª série era como uma desconhecida. Eu era um desconhecido para mim mesmo, mas no momento não queria me conhecer, posso apresentar-me depois. O que me interessava era descobrir o que aquela mulher de estilo despojado me despertara. Se olhos de cor castanho triste me deixavam com vontade de descobrí-la. Mas um véu a separava de tudo ou somente de mim.
Dias sem pensar em outra pessoa, mas sendo eu o mesmo. Liza estava doente e eu havia combinado de passar na casa dela depois, mas a necessidade de sentir Luma novamente perante mim bateu mais forte e eu a esperei no mesmo lugar que havíamos nos esbarrado. Não iria esquecer nunca aquela estreita calçada que havia ampliado meu campo sentimental provocando efeitos de intenso sentimentalismo. Em outras palavras, o amor. Aquilo que muitos falavam, mas poucos possuiam. Esperei não muito tempo, logo vinha a menina que eu via como mulher, a morena que eu via como noite. Passou por mim assustada, com a mesma expressão da semana anterior, mas eu a interrompi, mudando seu natural destino. Assim como ela mudara o meu, dias atrás. Perguntei como estava. A moça de expressão defensiva disse que estava atrazada e eu a deixei ir, para sempre.
Na vida temos poucas segundas chances, eu desperdicei as únicas oportunidades que a vida havia me dado para conhecê-la, talvez tê-la. E o que me restava não era muita coisa. Só um sentimento amargo e a lembrança daquilo que podia ter acontecido, podia ter sido. Esses casos dão grandes histórias de amor, pena essa não ser mais uma. Palpite.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Á procura da felicidade

Ele se chama José. Não, talvez João. Dois nomes comuns, populares. Sobrenome? Ah, não dirá muita coisa. Morava no campo. Pacato demais? Tá, na cidade. Talvez ele fosse apaixonado por alguém. O que levaria você a supor que essa seria mais uma história de amor. Aquela do camponês pobre e da pobre menina rica? Ou de qualquer outro impedimento. Não importa. Não faz diferença. Para você pode ser em pleno século XXI ou em 1820. Pode ser na China ou na Itália. Será que faria diferença se ele fosse metalúrgico e ela empresária? E se ela pertencesse a uma tribo e ele fosse piloto? Advogado, talvez. O que você espera, o que você procura? Algo que te surpreenda, provavelmente.
Então vamos lá. O tal João é apaixonado pela paisagista e ela por ele. Como todo amor correspondido, eles se casam e vivem uma vida corrida do dia-a-dia, mas ao mesmo tempo prazerosa. Isso soa estranho, não? Não tem nenhuma intriga, briga, desavença, distância, amor proibido, assassinato ou uma 3ª pessoa interessada em destruí-los. Chega a ser frustrante. Não é isso que as pessoas de fora procuram. Será que a felicidade dos outros incomoda? Por que é bom vermos as maldades que são feitas?  E, no final, como de costume todos os problemas acabam e finalmente todos ganham suas recompensas. Isso também pode ser frustrante, quando você volta pra si e vê que  continua no mesmo lugar de antes. Talvez numa livraria, talvez vendo o final da novela ou na frente do seu computador. Não importa. Você continua igual, com a mesma calça jeans surrada ou a gravata oprimante. Alguns com mais esperanças que outros. Alguns decepcionados e outros até sonhadores.
É isso que você procura? A sua felicidade? O seu amor eterno? A sua liberdade? Então vá buscá-la. Corra atrás dela, literalmente. Não procure motivos para desistir e nem para sonhar. Não busque histórias de pessoas com nomes diferentes, que moram em cidade estranhas e têm problemas maiores que os seus para você se contentar com o que tem. Não viaje para 1820 ou para 2020. Ah, e não se esqueça: Viva!