terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Ao ler Kafka esses dias me identifiquei com sua relação com seu pai. Posso estar me precipitando, mas não creio que outra pessoa pudesse descrever uma relação tão atordoada e problemática, mesmo que a vivenciasse. Alias, Kafka nos faz sentir vergonha do que somos, por descrever o que sentimos no nosso interior mais íntimo. Alguns autores usam técnicas parecidas e na verdade ajudam o leitor a se conhecer. Kafka invade a sua mente e rouba a sua memória, fazendo-o se identificar com o que ele descreve.
"Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuní-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente." (Carta ao pai).
A carne treme, a letra diminui, os olhos se desviam e tu ainda gritas demonstrando o prazer que tens em ter o domínio.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
É sempre bom ler Clarice. Entendê-la não é o objetivo, questionar-se talvez seja. É incrível como ela vive num universo do qual você não faz parte, somente ela vive e sabe o que vive. No entanto, ela te envolve de tal forma que passa a dominar o que você pensa e quando você vê já está automaticamente pensando como ela e não se surpreende mais com tanta irracionalidade. Talvez uma irracionalidade consciente e perspicaz. É incrível se sentir Clarice e Macabéia ao mesmo tempo. Ela é com certeza a minha terceira perna. Só que às vezes eu acho que lá no fundo ela não me é útil e com certeza eu não posso viver sem ela, mesmo que seja mais viável andar com as duas pernas. A Clarice me atormenta, me segue, me deixa frustrada em relação aos sentimentos alheios. Ela transborda toda a sua depressão numa postura de mulher determinada e isso me assusta. É como uma escolha, uma opção em ser sozinha e triste. De fato talvez seja opção de muitas pessoas. No entanto, as pessoas sofrem e choram. Ela não parece o tipo de pessoa que chora por tristeza ou por solidão. Só me parece aquele tipo que se transborda em melancolia e deixa o sentimento a dominar de tal forma que já se sente anestesiada à mesma. É um tipo de vida humano que não encontrarei jamais e não esquecerei. Já que ela viverá sempre em mim.
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