quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

 

É sempre bom ler Clarice. Entendê-la não é o objetivo, questionar-se talvez seja. É incrível como ela vive num universo do qual você não faz parte, somente ela vive e sabe o que vive. No entanto, ela te envolve de tal forma que passa a dominar o que você pensa e quando você vê já está automaticamente pensando como ela e não se surpreende mais com tanta irracionalidade. Talvez uma irracionalidade consciente e perspicaz. É incrível se sentir Clarice e Macabéia ao mesmo tempo. Ela é com certeza a minha terceira perna. Só que às vezes eu acho que lá no fundo ela não me é útil e com certeza eu não posso viver sem ela, mesmo que seja mais viável andar com as duas pernas. A Clarice me atormenta, me segue, me deixa frustrada em relação aos sentimentos alheios. Ela transborda toda a sua depressão numa postura de mulher determinada e isso me assusta. É como uma escolha, uma opção em ser sozinha e triste. De fato talvez seja opção de muitas pessoas. No entanto, as pessoas sofrem e choram. Ela não parece o tipo de pessoa que chora por tristeza ou por solidão. Só me parece aquele tipo que se transborda em melancolia e deixa o sentimento a dominar de tal forma que já se sente anestesiada à mesma. É um tipo de vida humano que não encontrarei jamais e não esquecerei. Já que ela viverá sempre em mim.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."

(Paixão segundo GH - Clarice Lispector)

domingo, 6 de novembro de 2011

Inspira cinzas

dou-te meu amor
mais uma vez
busca a solidão
foges, digo a cuja
procuro a saida
no momento da chegada
parto como uma dor
imensuravel da partida
chego no final
saio e volto
como num ato de coragem
busco o que tenho
procuro o que não quero
quero e volto pra buscar
o desconhecido
falo e num ato de loucura
beijo e cuspo
a boca, como escarro
fujo e volto
pro ser inexistente
pra vida límpida e negra
sublime da dor de cada dia

o medo não é da ida, é de voltar



"Ah solidão, foges que eu te encontro... Doce solidão"

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Era uma vez

em meias-verdades
que saltam e vagam pela metade
vou cobrindo e descobrindo o mundo
almejando e desconstruido

nesse mundo de meias verdades
rasgo o passado
morro pro pecado
vivo um clichê
de sorrisos e memorias
historias e amigos
de vergonhas tão risonhas
de processos
equivalentes
que se esquivocam
invocando-os

ó verdades,
porque seus seres deslumbram-se?
porque suas vidas enganam-me?
ó meias-verdades,
segues como rainha do mundo
viajando o imundo

caindo num abismo negro
de céus límpidos
do fantástico reino
de seres impuros

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Você passa e não me olha, mas eu olho pra você. Você por mim não chora, mas eu choro por você.
Esse é o poeta, que sofre, olha o seu amor, vive e deslumbra por você. Suas lágrimas são de urânio e você não o vê. 

... Chove sem parar!
Não há remédio
A doença felicidade contagia
Como num surto de doidos
Uma epidemia

No mundo dos cegos,
Dos pobres cadáveres
Semivivos podres
Felizes num compasso
viciado

Dos cegos,
Do poeta
Do palhaço
Em dança desconcertante
Entre os carros

O mundo não está a tona
E o medo de escrever resplandece
Como sua face nua e crua
Como tua carne exposta ao sol

Caia no abismo,
Tranque-se num beco.
E num relance qualquer
Mate o oculto de si

Como o poeta que sangra
O animal que se cobre
A raiz submersa
Na retina da flor