sábado, 4 de fevereiro de 2012

Simplesmente Alice

O que é necessário para nos encontrarmos? Vivemos nossas vidas em nosso cotidiano, sempre de forma dígna e estável. Será que realmente precisaríamos de algo mais? Talvez de um chocolate ou uma traição extraconjugal.     Algo para sair da rotina e conhecermos nosso interior. Limites e angústias. Sentimentos mais profundos que nos tornem realmente interligadas a algo. Alice era viva, mas não sabia viver. Era feliz até descobrir que a vida que tinha a tornava inexistente. Ao conhecer de fatos nossos amigos, compreendermos os papéis que nossos familiares representam. É como um grande palco, em que cada um tem um roteiro e um personagem enquanto Alice quer que Capitu faça a Madre Tereza. É impossível, uma loucura de sua parte. Isso porque, certamente, Alice não vê o cinismo de Capitu em seus olhos dissimulados, mas sim a doçura e benevolência de Madre Tereza. Uma completa insanidade, mas no fundo ela não quer ver o que esta em sua volta. As poucas vezes que experimentou quem realmente era não estava em sã consciência. Fazia parte de um transe seu, um esconderijo. O que faria Alice se por um dia sentisse o cheiro de seu sangue? Sim. Ou talvez o gosto de ferro de seu sangue, juntamente com a amargura no final da experiência. Ela esqueceu que estava viva, devia apanhar para lembrar que existia ainda sensibilidade a dor em seu corpo? Deveria então cair de um penhasco? Não, Alice preferiu entrar em transe, fora de si para que tivesse enfim uma relação com si mesma. Não seria fácil saber quem realmente são seus amigos, filhos, pai, mãe e irmã. A partir de então embarcou num romance, até terminar sozinha. Sem marido e amante. Mas com a chance de fazer qualquer pessoa apaixonar por si. Seria uma poção mágica? Um feitiço? Uma sedução? Simplesmente tinha essa opção. Poderia ser um presente dado por um velho sábio, uma poção, literalmente. O que deveria, por fim, Alice fazer? Escolher o marido e o conforto de um lar com os filhos? Deveria engatar num romance com o tal amante? A verdade disso tudo é que teria grandes chances de ser feliz em qualquer uma das relações. Pois em ambas haveria a certeza do amor do parceiro e isso é o que nos faz procurar alguém durante toda a vida. Isso é o que nos faz aguentar aquilo que não gostamos, é o que nos faz seguir adiante. Precisamos que um outro esteja apaixonado por nós e depois lutamos para que essa paixão não acabe. Talvez um lute mais que o outro. A questão é que precisamos disso, queremos uma relação estável e segura, mas nunca poderemos nos assegurar se no fundo aquele outro ser nos ama acima de tudo. Por mais que suas palavras e ações digam que sim. Há personagens de uma vida inteira neste mundo. Alice tinha esse privilégio. Poderia escolher quem deveria se apaixonar por si com a certeza de que isso ocorreria. No entanto, são tantas dúvidas, questões instigantes. Resolveu apaixonar-se por si. Como num ato de travessura, tomou sua poção e sem se tornar Narciso, apaixonou-se por si. Agora podia sem que quisesse ser. Julieta ou Macbeth. Capitu ou Madre Tereza. Podia fazer qualquer personagem, viver quem quisesse, pois era amada por ela mesma e dona de seu próprio teatro.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Gilez

Necessitamos de uma dupla personalidade. Tripla se for preciso. É sempre necessário nos adaptar de acordo com a situação ou o ambiente. Como um camaleão. Rapte-me e saberás o que sou de acordo com onde estou. Pena que tudo sempre depende de uma segunda pessoa. Minha autonomia ainda vou conquistar, talvez nesse dia me sentirei livre em discordar e contrariar alguém. Por enquanto me contento em não ser eu mesma, mas sim quem gostariam que eu fosse. Quem gostariam? Talvez isso importe mais do que o que eu gostaria. E por que tantos talvez? Pelo simples motivo de não terem me dito a resposta certa a ser seguida ainda. Quero e consigo? Eu consigo pra vocês. Pode ser? Talvez.
Pelo menos algo é bastante singular. Essas adaptações são feitas pela necessidade de ser aceito e inserido em algo. Qualquer que seja o ambiente que mantenha um grupo social do qual há essa necessidade de que eu faça parte. Não do grupo, mas sim de mim. Isso é particular. É meu. É minha vontade, eu quero. As perguntas são sempre minhas também. Mesmo que eu não as diga a ninguém, elas são minhas e eu não abro mão. Talvez eu tenha mais meia dúzia de coisas minhas. Por isso me preocupo mesmo com o outro. O que pensam, o que querem de mim e o que eu deverei fazer para perceberem que eu me esforço para fazer parte daquilo. Alias, diga-se de passagem que fingir um personagem é comigo mesma. Não aqueles de teatro cobertos pela arte com uma entonação perfeita na voz e um holofote. O meu papel é outro. Ele faz parte da vida real e eu nunca posso repetí-lo, muito menos ensaiar. Ele simplesmente aparece no momento crucial da cena e quando eu vejo foi esplêndido. Infelizmente não recebo flores no meu camarim, mas eu espero pelo dia em que levarão no meu quarto. Ou posso viver uma atriz e experimentar essa vida de glamour. Preciso de ajuda. Esses problemas que lidam com minha personalidade me atormentam. Somente um bom médico me ajudar. E eu sou uma ótima médica, talvez você já tenha lido meus artigos sobre psicanálise. Aplausos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ao ler Kafka esses dias me identifiquei com sua relação com seu pai. Posso estar me precipitando, mas não creio que outra pessoa pudesse descrever uma relação tão atordoada e problemática, mesmo que a vivenciasse. Alias, Kafka nos faz sentir vergonha do que somos, por descrever o que sentimos no nosso interior mais íntimo. Alguns autores usam técnicas parecidas e na verdade ajudam o leitor a se conhecer. Kafka invade a sua mente e rouba a sua memória, fazendo-o se identificar com o que ele descreve.

"Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuní-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente." (Carta ao pai).

A carne treme, a letra diminui, os olhos se desviam e tu ainda gritas demonstrando o prazer que tens em ter o domínio.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

 

É sempre bom ler Clarice. Entendê-la não é o objetivo, questionar-se talvez seja. É incrível como ela vive num universo do qual você não faz parte, somente ela vive e sabe o que vive. No entanto, ela te envolve de tal forma que passa a dominar o que você pensa e quando você vê já está automaticamente pensando como ela e não se surpreende mais com tanta irracionalidade. Talvez uma irracionalidade consciente e perspicaz. É incrível se sentir Clarice e Macabéia ao mesmo tempo. Ela é com certeza a minha terceira perna. Só que às vezes eu acho que lá no fundo ela não me é útil e com certeza eu não posso viver sem ela, mesmo que seja mais viável andar com as duas pernas. A Clarice me atormenta, me segue, me deixa frustrada em relação aos sentimentos alheios. Ela transborda toda a sua depressão numa postura de mulher determinada e isso me assusta. É como uma escolha, uma opção em ser sozinha e triste. De fato talvez seja opção de muitas pessoas. No entanto, as pessoas sofrem e choram. Ela não parece o tipo de pessoa que chora por tristeza ou por solidão. Só me parece aquele tipo que se transborda em melancolia e deixa o sentimento a dominar de tal forma que já se sente anestesiada à mesma. É um tipo de vida humano que não encontrarei jamais e não esquecerei. Já que ela viverá sempre em mim.